Livros

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O erotismo/pornografia literário apareceu acidentalmente para mim, foi na época da conclusão da faculdade, eu tinha uma ideia para a monografia: ia fazer uma análise mítica de Salomé, do Oscar Wilde e uma amiga iria fazer a análise de Cartas de um Sedutor, da Hilda Hilst, cada uma fez seu projeto, ambos foram aprovados, decidimos que faríamos nas férias de julho, já que a defesa seria em novembro, uma ajudaria a outra e tudo mais, no final de junho fomos ao CONUNE, quando voltamos, ficamos sabendo que a defesa tinha sido antecipada para agosto, já era começo de julho, período de provas nas escolas em que trabalhávamos, conversamos com a nossa orientadora(era a mesma) e ela aconselhou a fazermos juntas, abandonei o meu projeto e juntei-me a ela. Fizemos a bendita da monografia em duas semanas e meia, uma pressão danada, mas deu certo no final. Essa introdução toda é só para mostrar a bibliografia que venho montando desde então, eis os livros:
  1. Personas Sexuais, Camille Paglia - MUITO bom, sério, as análises e as inferências que a Paglia faz acerca de autores consagrados e de como o erótico/pornográfico aparece em suas obras são esclarecedoras, mesmo aquelas com as quais não concordo, servem para mostrar uma outra visão. Recomendo.
  2. Erotismo e Poder na Ficção Brasileira Contemporânea, Rodolfo Franconi - um breve histórico de como o erotismo é abordado na nossa ficção e porque ele é considerado uma forma de poder, ajudou muito quando estávamos escrevendo.
  3. A Arte de Amar, Ovídio - O autor ensina como se portar quando se está amando ou quando se quer conquistar alguém, o interessante é que ele não esquece de nada, vai desde noções de higiene até o tipo de roupa que cada um deve vestir, como se sentar, etc. Ah, "ensina" também como "desamar" alguém (não garanto que funciona, mas ajuda).
  4. Poesia Erótica, tradução de José Paulo Paes - Um dos meus favoritos, tem textos eróticos/pornográficos em várias línguas, o legal é que ele põe o original e em seguida a tradução, fora que tem uma introdução foda.
  5. O Amante, Marguerite Duras - Não sei a palavra exata para definir, algo entre poético e rascante, a descoberta do sexo por uma adolescente, filha de colonos na Indochina, junto com um amante chinês, desde a maneira como ele faz com que ela seja vista(prostituta) quanto ao jeito que ela o faz sofrer por amor, tudo no livro leva em conta essa dubiedade e de como a relação amor/sexo/fidelidade é perigosa.
  6. As 100 Melhores Histórias Eróticas da Literatura Universal, organização de Flávio Moreira Costa, - excelente compilação, tem desde os Cantares bíblicos, passando pelos Sonetos de Aretino e chegando em Caio Fernando Abreu e Márcia Denser.
  7. A História do Olho, Georges Bataille - O que falar de um livro em que um prato de leite se torna algo excitante? Em que a dor é mostrada de maneira erótica e possível? Atiçou-me ainda mais a vontade de ler O Erotismo, do mesmo autor, infelizmente está esgotado há um bom tempo.
  8. Os 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade - Pornografia levada ao extremo, é um livro cansativo, repulsivo, doloroso, e ao mesmo tempo que faz com que você queira lê-lo é como se ele te empurrasse e dissesse que você não possui estômago para ele. Nunca terminei, mas sei que vou, ele está sempre me chamando.
  9. Contos Grotescos, Hilda Hilst - Contos divertidos, engraçados, o grotesco do título deve ser levado dessa maneira, algo esdrúxulo, seco e natural, a história de Filó é excelente. Leiam.
  10. Contos Eróticos, Dalton Trevisan - É uma aquisição recente, não li todos os contos ainda, só devo dizer que gostei dos que li.
  11. A Cama Redonda de Maria Beatriz: Fantasias e Fetiches, Maria Beatriz Soares - Também um livro novo, é mais leve do que o do Dalton, a linguagem também é diferente, tende em alguns contos para o intimismo, em outros para o visceral.
  12. As Onze Mil Varas, Guillaume Apollinaire - Vanguardista, mostra o sexo de maneira primal, instintiva, tem sadismo, masoquismo, mas não da maneira repulsiva dos 120 dias de Sodoma, provoca riso, diversão, até excitamento, mas não horror.
  13. A Filosofia na Alcova, Marquês de Sade - Diferente do 120 dias, esse é mais doutrinário, expõe a ideia e não os atos, é um livro a se considerar, ler, discutir e pensar.
  14. Do Desejo, Hilda Hilst - É minha autora favorita, os poemas desse livro é quase como uma radiografia de mim. "Tenta-me de novo. Obriga-me." Um dos versos que mais falam a mim. É sempre uma bofetada.
  15. A Casa das Belas Adormecidas, Yasunari Kawabata - Erotismo lírico, sutil, é etéreo e ao mesmo tempo quase palpável, não conseguiria explicar em poucas palavras.
Esses são os que estão comigo, mas ainda tem A Vênus das Peles, Sacher-Masoch; O Caderno Rosa de Lori Lamby, Estar Sendo, Ter Sido e Cartas de um Sedutor, Hilda Hilst; A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera e O Cortiço, Aluísio Azevedo.

Sword of Truth/Legend of the Seeker

sábado, 21 de novembro de 2009


Legend of the Seeker é uma de minhas séries favoritas, gostei tanto que comecei a ler os livros que serviram como base para ela. E são muito bons também, já estou quase terminando o segundo, sim, a prosa é seriada e atende por Sword of Truth; tem tudo que eu gosto, fantasia, magia, conflitos morais/éticos, humor, luta.
Fazia tempo não devorava livros como estou fazendo com esses, certo que estou sempre lendo alguma coisa, aliás, várias coisas, tudo simultaneamente, que tinha esquecido como era dedicar-me e querer ler só um livro por prazer, sem outra pretensão que não seja hedônica. Boa parte do que leio tenho de prestar atenção em elementos narrativos, analisar, criticar, ou ainda escolher o que devo passar adiante ou não, e isso me faz bem, também é divertido mas não deixa de ser trabalho. Feliz por ter achado um livro que tenha me mostrado essa faceta que havia deixado de lado.

Sobre cheiros e gostos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lembranças de cheiros e gostos são estranhas, você está lá, de boa e quando pensa que não, o paladar e o olfato trazem lembranças que te deixam com um sorriso bobo no rosto, meio nostálgica; sempre que vou banhar tenho isso, o cheiro daquele sabonete me traz recordações e sensações tão boas, é meio esdrúxulo, porque já vou pro chuveiro sabendo o que vou lembrar, eu sei, tem horas que não faço o menor sentido. Enfim, só uma listinha de cheiros e gostos.
  1. Água de coco, rosas e loção pós-barba - L.
  2. Sabonete de castanha-do-pará e semente de linhaça - R. & I.
  3. Alecrim e cheiro de mar - Al.
  4. Sonho de Valsa e Ouro Branco - An.
  5. Colônia infantil - S.
  6. Hypnose - M.
  7. Torta Alemã - V.

As coisas tão mais lindas.

domingo, 8 de novembro de 2009

Quando entrei na faculdade conheci um rapaz que foi meu "affair" por anos, nos dávamos muito bem, ficamos muito apegados, mas nunca namoramos, nos conhecíamos demais para isso, éramos íntimos demais para isso. Perdemos contato tem uns 6 anos, e hoje, ouvindo uma música lembrei-me dele. 2001, Recife, encontro de estudantes, cada um pro seu lado, nos encontrávamos na hora de dormir, conversávamos, ríamos, depois cada um pro seu lado, no final do encontro ele me deu uma das coisas mais fofas que já recebi de alguém: uma faixa artesenal, com imagem de anjos(que eu amo) e uma frase do Renato Russo; atrás, ele escreveu: Dentre as coisas mais lindas que eu conheci, só reconheci suas cores belas quando eu te vi (música que ele sabia fazer parte da minha vida) e algo sobre como aquela viagem seria inesquecível. Continua sendo inesquecível. Sempre será.

Teenage Kick

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Conheci The Undertones ouvindo uma versão de Teenage Kick do Nouvelle Vague, gostei tanto do arranjo feito pelo NV que fui atrás do original e acabei achando bem bacana o som deles. Sem muito a dizer, só deixar registrado para referências futuras.

video

Aquisições

domingo, 25 de outubro de 2009

Fui ao salão do livro despretensiosamente, só para não ficar o domingo em casa (e passear entre estantes e mais estantes de livros é uma delícia) e acabei comprando:

O caderno de Michelangelo - Paul Christopher (Tava barato, dei uma chance)
O quieto animal da esquina - Joao Gilberto Noll (Gosto muito, infelizmente emprestei o outro que tinha dele e nunca me devolveram)
As estruturas da narrativa - Tzvetan Todorov (Há séculos namoro este livros, mas nunca comprava, problema resolvido)
Discurso e Memória em José Alencar - Vera Moraes(organizadora) (Não sou muito fã do Alencar, justamente por isso precisava de algo sobre ele, ter fontes é sempre bom)
Confluências - crítica literária e psicanálise - Cleusa Rios P.Passo (Ensaios sobre Clarice Lispector, Juan Rulfo - amo - entre outros; gosto de ler essas críticas, de conhecer a visão dos outros sobre textos que já li ou lerei.)
A cama redonda de Maria Beatriz:Fantasias e Fetiches - Maria Beatriz Soares (Aumentar meu acervo de livros sobre erotismo ou... desculpa pra ler putaria)
O riso e o risível na história do Pensamento - Verena Alberti (Teorias de Platão, Aristóteles, Bataille acerca do riso, chamou-me a atenção)
Mitos e lendas do Japão - Seleção de Cecílias Casas (Mitos sempre me fascinaram, mas admito que meu conhecimento sobre os mitos japoneses é quase nulo, já não vai ser mais.^^')
Nauro Machado - Seleçao de poemas (Não tinha nada do Nauro Machado, e olha que já tive a chance de conversar com ele, outro problema sanado)
Poética: tradição e modernidade - Antonio Garcia Berrio e Teresa Hernandes Fernandez (Tenho de dar mais atenção à Teoria, vou voltar a trabalhar com ela)
Serão Inquieto e Poemas Reunidos - Antônio Patrício (Português, escritor de Suze, traços simbolistas, IMPERATIVO que eu comprasse)

Excelentes aquisições, e gastei exatos 57 reais para ter todos eles. 0/

Suspensão

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Uns dias que passei fora da realidade, sinceramente? Algo que não pretendo repetir, pelo menos não da maneira que foi. Teve partes boas? Sim, mas não compensaram a dor de cabeça. Agora é atualizar-me do mundo.

* Foto: Lustre do Teatro Arthur Azevedo, by me.

Bawdy can be sane*

sábado, 3 de outubro de 2009

Sex contains all, bodies, souls,
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the seminal milk;
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves, beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow'd persons of the earth,
These are contain'd in sex, as parts of itself, and justifications of itself.
Walt Whitman - A Woman Waits for Me.
Sexo faz parte de minha natureza, embora assumir isso já tenha me causado alguns problemas. Há quem goste de futebol, eu gosto de sexo: ler, falar, discutir, fazer. Admiro-me de como muitos ainda ruborizam ao ouvirem algo que remeta a isso, outro dia numa das turmas em que leciono, os alunos ficaram cheios de dedo para falar "puta", e olha que era contextualizado, sem entrelinhas ou malícia. Há os que escondem a vergonha atrás das piadinhas, é um tanto quanto patético, envergonhar-se de falar eu até entendo, tem toda uma questão de criação e idéias incutidas pelo meio em que se vive, mas pagar de moderno e banalizar com piadinhas infames, ao meu ver, chega a ser pior. Por que não encarar como algo natural? Faz parte do homem, nascemos disso e precisamos, sim precisamos, disso. É claro que não é para sair falando de sexo com a primeira pessoa que aparecer no caminho, mas não faz mal nenhum aceitar que é natural e que quem está falando/lendo/discutindo não é um pervertido(a) que só quer foder com você.

* D.H.Lawrence - Bawdy can be sane.

Estar Sendo. Ter Sido. *

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ontem, conversando com o L. (vibe Death Note), falamos sobre como eu era e como sou, visto que nos conhecemos há 11 anos, dá para se falar em passado/presente. Percebi algumas coisas sobre mim, outras ainda permanecem desconhecidas. Resolvi listar algumas, a título de experiência, e ver se continuo assim daqui uns 5 meses.
Ei-las:
  1. Confusa, hoje reconheço, mas aos 17, era cheia de certezas e de que nunca iria mudá-las;
  2. Ciumenta, sempre fui, mas a capa de "modernidade" com a qual me revestia, impedia-me de demonstrar;
  3. Introspectiva, se bem que isso não mudou muito, a maior parte de pensamentos/sentimentos guardo para mim, embora a palavra faça parte do meu mundo e eu seja tocada/comandada/manipulada por ela, é uma relaçao de submissão, passividade, encaro-as mas não as domino, ou talvez seja só egoísmo;
Há tantas outras coisas, mas ainda agora não vejo meios de transmutar a idéia (com acento mesmo) em palavra. Um dia eu consigo.

"Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. Continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada"
Caio Fernando Abreu - Dama da Noite

* Hilda Hilst - Estar Sendo. Ter Sido.

Sonho.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009


Festa em um prédio, algumas pessoas conhecidas, a maioria eu nunca tinha visto. Música, conversas, há um sofá escuro encostado numa parede cuja tinta está descascando, converso com um rapaz, sensação de já tê-lo visto em algum lugar; sacada do prédio, que agora percebo ser uma espécie de clínica, o mesmo rapaz, estamos próximos a uma parede, consigo enxergá-lo melhor e percebo que é um antigo aluno, ele diz que sabia quem eu era e que não se importa com isso, amassos, resolvemos sair dali e percorremos um corredor, que estava mais para labirinto, perco-o de vista algumas vezes; quarto com meia luz, cama no meio, branco e marrom, um tom terroso, lembro-me de ter deitado sobre o braço dele e de sentir a respiração próxima à minha orelha, o cabelo dele era castanho, caía sobre o rosto, a pele era um tanto áspera e rescendia a cânfora (sonhos têm cheiro?) ou algo parecido, deixava-me anestesiada, mãos grandes, uma delas estava espalmada em minha perna, a outra estava perto de minha boca, podia sentir seus dedos nela. Conversamos algo e dormimos. Dormi. Mergulhada em outro sonho, perdida num espaço onírico. O que é real? O que é desejo?
Acordei.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mês quente, o mais quente do ano, acordando várias vezes de madrugada para tomar banho. É o Armagedon, serious, o mundo vai acabar em fogo. Deixando todo o drama de lado, vida tá super corrida, sinto falta de postar, mas ainda estou em uma vibe down e não quero ficar escrevendo tristezas porque ao invés de mitigar, elas aumentarão.
Algumas notícias boas, viajo em janeiro, minhas lentes chegaram e são confortabilíssimas, super recomendo as acuvue hydraclear, meus olhos não ficam vermelhos e eu chego a esquecer que estou usando-as, passei no seletivo para o projeto Darcy Ribeiro, resta saber quando vão me chamar.
Bem, é isso.

"As boas notícias não gostam de barulho. Sabem que pisam em território hostil, sabem que os inimigos podem vir de toda parte e por isso, quando se aproximam, medem bem os passos. Com medo de nos acordar, as boas notícias preferem chegar na ponta dos pés. Mesmo assim, ela acordou e viu as letras boiando no monitor colorido, no alto, a tempo de ser informada de que já não existia. O sono de repente escorreu pelos seus pés e Joana recebeu em cheio, na retina, no ouvido, na própria pele, o golpe desorientador, a aflição de quem acorda sem poder lembrar, a princípio, onde está. Depois de dormir de mau jeito em uma cadeira no saguão do aeroporto, Joana girou os ombros, balançou a cabeça para um lado e outro, se desfazendo do que parecia um excesso de ossos, uma rigidez desencontrada, e tentou pôr os músculos de volta no seu contorno original. Ao mesmo tempo, o monitor luminoso insistia em repetir o seu nome, letra por letra, as sílabas flutuavam sobre a lápide de água, anunciando que, havia alguns minutos, Joana tinha deixado mesmo de existir.
Este mundo já não a conhecia."
Rubens Figueiredo. (Trecho do conto "Sem os Outros", do livro As Palavras Secretas)

Insônia

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fiquei sem postar um tempo, vida conturbada, insônia, cansaço, tudo que escrevia tinha cara de bilhete suicida e eu não tenho mais idade pra isso né? Sinceramente? Preciso de coisas novas, algo que saia do roteiro filme/livro/academia/isolamento, mas o quê? Vontade de jogar tudo pro alto e sair andando sem rumo e sem pensar, às vezes chego a acreditar que meu mal é pensar. Quem foi mesmo que disse que ignorância é felicidade? Na atual conjuntura, me parece uma opinião acertada.


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
(...)
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Álvaro de Campos - Insônia

Espera

terça-feira, 28 de julho de 2009

Em stand-by até o fim do ano, torcendo para esse semestre passar voando, preciso de minha dose de cidade grande e de tudo que eu tenho por lá.
Viver na espera de umas poucas semanas é saudável? Pode ser, mas parece-me melhor que os comprimidos.

**********

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

Álvaro de Campos - Sou eu

Alimento

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Gosto muito da Hilda Hilst, é, sem titubeios, minha escritora favorita. Não só pela vastidão de sua obra, mas por ter ciência de que quando era ela mesma, era uma 'tábua etrusca', mas por saber, de alguma maneira, desmitificar-se e fazer entender-se, quisera eu ter esse dom. Muita coisa dela ainda me é difícil de digerir, é substância demais para tão pouco ser, mas creio um dia chegar lá, enquanto isso, continuo sendo alimentada pelos que entendo. Abaixo o trecho de um deles. Deliciem-se.

Cansei-me de leituras, conceitos e dados. De ser austera e triste como conseqüência. Cansei-me de ver frivolidades levadas a sério e crueldades inimagináveis tratadas com irrelevância, admiração ou absoluto desprezo. Sou velha e rica. Chamo-se Leocádia. Resolvi beber e berimbar antes de desaparecer na terra, ou no fogo ou na imundície ou no nada. Contratei uma secretária-acompanhante e disse-lhe o seguinte: és jovem e apetitosa. Quando os homens quiserem ter relações contigo, diga-lhes que façam um esforço e deitem-se comigo. Pagarei muitíssimo bem a cada um deles e terás régias comissões a cada êxito.
Ficou perplexa. Olhou-me a figura ainda esguia, mas bastante deteriorada, pediu-me que levantasse a saia, levantei, olhou aturdida minhas coxas murchas. Senhora, retrucou, será muito difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise...E saiu correndo em direção ao banheiro. Na volta, explicou-me que havia sido professora e sempre tinha pequenas náuseas quando usava a mesóclise, mas diante de um assunto tão repugnante (no seu entender) e acrescido de mesóclise, teve de vomitar mesmo. Estava vermelha e lacrimosa, mas bastante ativa. Continuou: hei de portar-me indignamente para satisfazê-la, desde que meu salário seja compatível com tamanha velhacaria. Disse a quantia. Ficou radiante. Chama-se Joyce (!). É mignon e deliciosa, peitinhos de adolescente, tem 30 mas dá-se-lhe 20 (eu não tenho medo da mesóclise), a boca de cantinhos levantados, os olhos claros entre o amarelo e o castanho, os cabelos quase ruivos, elegante no olhar e na postura. Perguntou-me de chofre, ao anoitecer, diante do meu primeiro uísque (aprendi que qulaquer bebida é menos fatal se se começa a beber a partir das seis da tarde) se eu conhecia Chesterton. Não acreditei no que ouvia. Seria algum Chesterton amiguinho dela? Um professor? Algum político? Não senhora, refiro-me a Gilbert Keith Chesterton, novelista, ensaísta, crítico e humorista inglês. Meu Deus!, exclamei eu, que deixei de pensar pra continuar a viver, me encontro diante de alguém que leu Chesterton. Por favor, Joyce, previno-a, e previno-a com uma frase do citado: “se a tua cabeça te ofende, corta-a fora”.
Foi o que aconteceu com a minha, porque para mim depois de todas as reflexões sobre a sordidez, a ignomínia, a canalhice da humanidade, prefiro esquecer que um Chesterton existiu.

Hilda Hilst - Bestera

Calor

terça-feira, 21 de julho de 2009

Dias quentes, escaldantes, a vontade que dá é de ficar o dia todo nua, com o ventilador ligado, água de coco geladinha e um bom livro, daí eu acordo e vejo que a realidade é bem outra. Sem refresco, oásis, seca e árida, e o calor continua corroendo a pele grudenta, a imagem que me vem à mente é que virei metal líquido ou lava, tal é meu estado, e pior, sinto isso tanto dentro quanto fora de mim, estou numa ebulição emocional que se chegar a deixar transbordar é possível que queime alguém, preciso achar uma maneira de amainar essa quentura. Logo!

Little Miss

domingo, 19 de julho de 2009

Bôa

Às vezes sou recriminada por ouvir e gostar tanto de bandas estrangeiras, o que alguns não entendem é que, para quem realmente aprecia música, a língua não é uma barreira, e o fato de eu gostar de banda X, Y ou Z não faz com que eu goste menos do produto nacional, amo minha língua pátria, mas se algo provoca identificação em mim devo deixar de lado apenas porque não foi escrito em português?
Conheci essa banda através de um amigo que era viciado em Lain, ele mandou-me Duvet, gostei, fui atrás de mais coisas da banda e então conheci Little Miss, é a minha música, não tem muito o que dizer, tornou-se minha, ouvi-la é ver-me, mesmo quando a situação que vivo não é a da música, mas um dia foi, e pelo que conheço de mim, um dia tornará a ser.

In the morning - she's gonna make love
She's gonna make it like she's never done before
She's gonna scare you with her passion
She's gonna make it seem like she don't care
She's gonna hold you close
She's gonna make you cry
She's gonna make it feel like you don't care
You're gonna need her
She's gonna love you
And melt your cold stare


Bôa - Little Miss

Fragmentos

sábado, 18 de julho de 2009

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. *


Dos textos que ecoam em mim, esse é um dos mais fortes; é boa parte de minha vida, sinto-me mais sendo muitas do que sendo apenas vaso; cada pedaço, caco de mim tem sua história, que pode ou não ser real; às vezes chega a ser difícil distinguir o que vive interna do externamente. Em alguns momentos saber disso faz-me alegre, em outros tristes, e sigo assim, fragmentada.

*Álvaro de Campos - Apontamento

Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. *

quinta-feira, 16 de julho de 2009

E como tantas coisas, esse blog surgiu da necessidade de expor aquilo que gosto: músicas, fotos, textos; tanta coisa que me toca e que fica solta, então, eis a tentativa de reunir aqui os fragmentos que constroem meu mundo.

* Alberto Caeiro - A espantosa realidade das cousas
 
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