Bawdy can be sane*

sábado, 3 de outubro de 2009

Sex contains all, bodies, souls,
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the seminal milk;
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves, beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow'd persons of the earth,
These are contain'd in sex, as parts of itself, and justifications of itself.
Walt Whitman - A Woman Waits for Me.
Sexo faz parte de minha natureza, embora assumir isso já tenha me causado alguns problemas. Há quem goste de futebol, eu gosto de sexo: ler, falar, discutir, fazer. Admiro-me de como muitos ainda ruborizam ao ouvirem algo que remeta a isso, outro dia numa das turmas em que leciono, os alunos ficaram cheios de dedo para falar "puta", e olha que era contextualizado, sem entrelinhas ou malícia. Há os que escondem a vergonha atrás das piadinhas, é um tanto quanto patético, envergonhar-se de falar eu até entendo, tem toda uma questão de criação e idéias incutidas pelo meio em que se vive, mas pagar de moderno e banalizar com piadinhas infames, ao meu ver, chega a ser pior. Por que não encarar como algo natural? Faz parte do homem, nascemos disso e precisamos, sim precisamos, disso. É claro que não é para sair falando de sexo com a primeira pessoa que aparecer no caminho, mas não faz mal nenhum aceitar que é natural e que quem está falando/lendo/discutindo não é um pervertido(a) que só quer foder com você.

* D.H.Lawrence - Bawdy can be sane.

Estar Sendo. Ter Sido. *

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ontem, conversando com o L. (vibe Death Note), falamos sobre como eu era e como sou, visto que nos conhecemos há 11 anos, dá para se falar em passado/presente. Percebi algumas coisas sobre mim, outras ainda permanecem desconhecidas. Resolvi listar algumas, a título de experiência, e ver se continuo assim daqui uns 5 meses.
Ei-las:
  1. Confusa, hoje reconheço, mas aos 17, era cheia de certezas e de que nunca iria mudá-las;
  2. Ciumenta, sempre fui, mas a capa de "modernidade" com a qual me revestia, impedia-me de demonstrar;
  3. Introspectiva, se bem que isso não mudou muito, a maior parte de pensamentos/sentimentos guardo para mim, embora a palavra faça parte do meu mundo e eu seja tocada/comandada/manipulada por ela, é uma relaçao de submissão, passividade, encaro-as mas não as domino, ou talvez seja só egoísmo;
Há tantas outras coisas, mas ainda agora não vejo meios de transmutar a idéia (com acento mesmo) em palavra. Um dia eu consigo.

"Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. Continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada"
Caio Fernando Abreu - Dama da Noite

* Hilda Hilst - Estar Sendo. Ter Sido.

Sonho.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009


Festa em um prédio, algumas pessoas conhecidas, a maioria eu nunca tinha visto. Música, conversas, há um sofá escuro encostado numa parede cuja tinta está descascando, converso com um rapaz, sensação de já tê-lo visto em algum lugar; sacada do prédio, que agora percebo ser uma espécie de clínica, o mesmo rapaz, estamos próximos a uma parede, consigo enxergá-lo melhor e percebo que é um antigo aluno, ele diz que sabia quem eu era e que não se importa com isso, amassos, resolvemos sair dali e percorremos um corredor, que estava mais para labirinto, perco-o de vista algumas vezes; quarto com meia luz, cama no meio, branco e marrom, um tom terroso, lembro-me de ter deitado sobre o braço dele e de sentir a respiração próxima à minha orelha, o cabelo dele era castanho, caía sobre o rosto, a pele era um tanto áspera e rescendia a cânfora (sonhos têm cheiro?) ou algo parecido, deixava-me anestesiada, mãos grandes, uma delas estava espalmada em minha perna, a outra estava perto de minha boca, podia sentir seus dedos nela. Conversamos algo e dormimos. Dormi. Mergulhada em outro sonho, perdida num espaço onírico. O que é real? O que é desejo?
Acordei.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mês quente, o mais quente do ano, acordando várias vezes de madrugada para tomar banho. É o Armagedon, serious, o mundo vai acabar em fogo. Deixando todo o drama de lado, vida tá super corrida, sinto falta de postar, mas ainda estou em uma vibe down e não quero ficar escrevendo tristezas porque ao invés de mitigar, elas aumentarão.
Algumas notícias boas, viajo em janeiro, minhas lentes chegaram e são confortabilíssimas, super recomendo as acuvue hydraclear, meus olhos não ficam vermelhos e eu chego a esquecer que estou usando-as, passei no seletivo para o projeto Darcy Ribeiro, resta saber quando vão me chamar.
Bem, é isso.

"As boas notícias não gostam de barulho. Sabem que pisam em território hostil, sabem que os inimigos podem vir de toda parte e por isso, quando se aproximam, medem bem os passos. Com medo de nos acordar, as boas notícias preferem chegar na ponta dos pés. Mesmo assim, ela acordou e viu as letras boiando no monitor colorido, no alto, a tempo de ser informada de que já não existia. O sono de repente escorreu pelos seus pés e Joana recebeu em cheio, na retina, no ouvido, na própria pele, o golpe desorientador, a aflição de quem acorda sem poder lembrar, a princípio, onde está. Depois de dormir de mau jeito em uma cadeira no saguão do aeroporto, Joana girou os ombros, balançou a cabeça para um lado e outro, se desfazendo do que parecia um excesso de ossos, uma rigidez desencontrada, e tentou pôr os músculos de volta no seu contorno original. Ao mesmo tempo, o monitor luminoso insistia em repetir o seu nome, letra por letra, as sílabas flutuavam sobre a lápide de água, anunciando que, havia alguns minutos, Joana tinha deixado mesmo de existir.
Este mundo já não a conhecia."
Rubens Figueiredo. (Trecho do conto "Sem os Outros", do livro As Palavras Secretas)

Insônia

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fiquei sem postar um tempo, vida conturbada, insônia, cansaço, tudo que escrevia tinha cara de bilhete suicida e eu não tenho mais idade pra isso né? Sinceramente? Preciso de coisas novas, algo que saia do roteiro filme/livro/academia/isolamento, mas o quê? Vontade de jogar tudo pro alto e sair andando sem rumo e sem pensar, às vezes chego a acreditar que meu mal é pensar. Quem foi mesmo que disse que ignorância é felicidade? Na atual conjuntura, me parece uma opinião acertada.


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
(...)
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Álvaro de Campos - Insônia

Espera

terça-feira, 28 de julho de 2009

Em stand-by até o fim do ano, torcendo para esse semestre passar voando, preciso de minha dose de cidade grande e de tudo que eu tenho por lá.
Viver na espera de umas poucas semanas é saudável? Pode ser, mas parece-me melhor que os comprimidos.

**********

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

Álvaro de Campos - Sou eu

Alimento

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Gosto muito da Hilda Hilst, é, sem titubeios, minha escritora favorita. Não só pela vastidão de sua obra, mas por ter ciência de que quando era ela mesma, era uma 'tábua etrusca', mas por saber, de alguma maneira, desmitificar-se e fazer entender-se, quisera eu ter esse dom. Muita coisa dela ainda me é difícil de digerir, é substância demais para tão pouco ser, mas creio um dia chegar lá, enquanto isso, continuo sendo alimentada pelos que entendo. Abaixo o trecho de um deles. Deliciem-se.

Cansei-me de leituras, conceitos e dados. De ser austera e triste como conseqüência. Cansei-me de ver frivolidades levadas a sério e crueldades inimagináveis tratadas com irrelevância, admiração ou absoluto desprezo. Sou velha e rica. Chamo-se Leocádia. Resolvi beber e berimbar antes de desaparecer na terra, ou no fogo ou na imundície ou no nada. Contratei uma secretária-acompanhante e disse-lhe o seguinte: és jovem e apetitosa. Quando os homens quiserem ter relações contigo, diga-lhes que façam um esforço e deitem-se comigo. Pagarei muitíssimo bem a cada um deles e terás régias comissões a cada êxito.
Ficou perplexa. Olhou-me a figura ainda esguia, mas bastante deteriorada, pediu-me que levantasse a saia, levantei, olhou aturdida minhas coxas murchas. Senhora, retrucou, será muito difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise...E saiu correndo em direção ao banheiro. Na volta, explicou-me que havia sido professora e sempre tinha pequenas náuseas quando usava a mesóclise, mas diante de um assunto tão repugnante (no seu entender) e acrescido de mesóclise, teve de vomitar mesmo. Estava vermelha e lacrimosa, mas bastante ativa. Continuou: hei de portar-me indignamente para satisfazê-la, desde que meu salário seja compatível com tamanha velhacaria. Disse a quantia. Ficou radiante. Chama-se Joyce (!). É mignon e deliciosa, peitinhos de adolescente, tem 30 mas dá-se-lhe 20 (eu não tenho medo da mesóclise), a boca de cantinhos levantados, os olhos claros entre o amarelo e o castanho, os cabelos quase ruivos, elegante no olhar e na postura. Perguntou-me de chofre, ao anoitecer, diante do meu primeiro uísque (aprendi que qulaquer bebida é menos fatal se se começa a beber a partir das seis da tarde) se eu conhecia Chesterton. Não acreditei no que ouvia. Seria algum Chesterton amiguinho dela? Um professor? Algum político? Não senhora, refiro-me a Gilbert Keith Chesterton, novelista, ensaísta, crítico e humorista inglês. Meu Deus!, exclamei eu, que deixei de pensar pra continuar a viver, me encontro diante de alguém que leu Chesterton. Por favor, Joyce, previno-a, e previno-a com uma frase do citado: “se a tua cabeça te ofende, corta-a fora”.
Foi o que aconteceu com a minha, porque para mim depois de todas as reflexões sobre a sordidez, a ignomínia, a canalhice da humanidade, prefiro esquecer que um Chesterton existiu.

Hilda Hilst - Bestera

 
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